Entrevista: Desafios do “novo normal” – Ed. 344

Por Daniela Bossle/Editora e Jornalista da Revista Proteção

Pandemia acelerou o trabalho home office cuja carga física e mental é de responsabilidade da empresa

Atuando com ergonomia há mais de 40 anos, o médico do Trabalho Hudson de Araújo Couto, 69, nascido em Bom Despacho/MG, realiza neste ano um curso num formato que ele não esperava ter que aderir tão rapidamente: o do ensino a distância. Da mesma forma, suas consultorias (as que não foram interrompidas por causa da pandemia) e as aulas de Fisiologia na Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, passaram para o formato EaD.

Toda esta mudança no mundo do trabalho, que já vinha se desenhando, ganhou  velocidade com a chegada da Covid-19 no Brasil obrigando gestores, profissionais de SST e trabalhadores a adaptarem-se ao que vem sendo chamado de “novo normal”.

Hudson, que é também professor coordenador do curso de pós-graduação em Medicina do Trabalho da FCM/MG e doutor em Administração na área de Comportamento Humano nas Organizações, acredita que mesmo após a pandemia, boa parcela dos trabalhadores deve permanecer em home office, o que exige ajustes na gestão da ergonomia utilizando-se das tecnologias de informação para o adequado controle da saúde das pessoas. No início do ano lançou a quarta edição do seu livro Ergonomia 4.0 que traz capítulos diferenciados sobre ergonomia cognitiva e ‘revolução das tecnologias 4.0’ e seus reflexos para o trabalho.

Quais serão as principais demandas ergonômicas no chamado “novo normal” nos ambientes de trabalho?

A primeira é a questão do distanciamento. Você encontra diversos lugares onde não tem muito jeito como no ônibus ou no metrô, o negócio é usar máscara; mas nos refeitórios, nos postos de trabalho, nas linhas de produção é preciso ter um olhar diferenciado daqui para frente. Quando o trabalho em escritórios voltar, voltarão os ‘cubículos’, ou seja, o open space vai voltar a ser com as divisórias superiores e laterais que foram tão criticadas. Daqui para a frente é tudo meio de longe, mesmo quando as máscaras forem retiradas. Como o inglês, você nunca toca o inglês, no mínimo um metro de distância de espaço pessoal [risos]… Outra demanda que deve se acentuar é o que chamo de ‘epifania dos TIC-TOC’. Agora as pessoas com Transtorno Obsessivo Compulsivo foram aos céus, quem tem mania de limpeza está se realizando. A gente pode se perguntar qual o limite disso, mas não sabemos ainda porque o inimigo é invisível. Então, a obsessão por limpeza nas empresas deve aumentar e algumas vão pecar por excesso. Mas de qualquer forma há um saldo positivo nisso. Os escritórios modernos, com postos de trabalho de frente um para o outro, tudo num amplo espaço integrado estão vazios. O pessoal de escritório tem que entender que vai trabalhar predominantemente em casa. Claro, as empresas vão reduzir seus custos com transporte e refeições, mas, por outro lado, terão que olhar para a ergonomia no home office. E aí vem o novo desafio do ‘lar nem sempre doce lar’, que envolve uma série de dificuldades e questões como a gestão dos filhos e da casa, a disciplina e tudo aquilo que envolve o trabalho realizado em casa. Outro aspecto que precisaremos aprender a lidar será com o que chamo de ‘tempos da sanfona’. Temos que nos acostumar que durante dois ou três anos as empresas vão abrir e fechar. Chamar gente e depois mandar para a casa. Estou vendo isto aqui em Minas Gerais na indústria automobilística. Os fornecedores ficaram dois meses fechados, agora foram chamados, estão trabalhando na cadeia produtiva de segunda a quinta. Depois vão para casa e esperam para ver se vão precisar vir na segunda-feira. E será assim até que se tenha vacinas. Isto impacta em ansiedade porque embora a pessoa em princípio não tenha prejuízo em seu salário, fica aquela tensão. Afinal, não sabe quando será chamada, até quando a empresa vai aguentar neste sistema e a pessoa começa a se perguntar até quando ela será necessária. Porque não tem jeito, as demissões vão acontecer. Não há como suportar um negócio numa situação como esta. Aí vem o adoecimento mental que será outra demanda ergonômica forte. Veja o pessoal de saúde, que está na linha de frente de tratamento de Covid, sem recursos necessários; são um exemplo clássico. Associada a isto há uma série de outros motivos que contribuem para o aumento da ansiedade: o medo de perder o emprego, medo das perspectivas diante do efeito sanfona, medo do próprio adoecimento que é muito mais crítico para quem está na linha de frente, mas que todo mundo também tem. Outra mudança radical e lamentável atingirá os idosos. Houve um grande esforço da ergonomia no mundo para inclusão do idoso no trabalho. Escrevi muito sobre isso e as empresas começaram a aproveitá-lo melhor porque o danado do idoso, principalmente na faixa dos 55 a 60 ou 65 anos é muito produtivo, gera muito para as empresas, há estatísticas mostrando isso. Mas agora, o que vamos fazer? Posso aceitar o idoso se ele estiver em casa, mas não posso mais aceitar o idoso na fábrica porque ele é grupo de risco. Você imagina o que significará isso para a empresa se o idoso morrer de Covid? A empresa não terá sido cautelosa porque sabia que ele era grupo de risco e optou por tê-lo trabalhando. Vai sofrer processo imenso. Então, a empresa vai demitir ou não vai contratar. A não seleção de idosos será um critério que infelizmente representará uma regressão de décadas, pessoas com mais de 60 anos não têm nenhuma chance de contratação no mercado de trabalho. Outra demanda que deve entrar forte está relacionada ao que chamo de ‘aparelho do diabo’: o ar-condicionado. Temos visto um problema grande nos frigoríficos brasileiros. Aglomeração, cotovelo com cotovelo, sem distanciamento e ainda o ar-condicionado funcionando direto, soprando coronavírus nas pessoas. Os sistemas de ar-condicionado vão ter que ser muito mais vistoriados em termos de manutenção, de limpeza, cuidados importantes para estabelecer ventilação, e proibir a recirculação do ar. São coisas que mudam a realidade da empresa que precisam agora, mais do que nunca, serem projetadas com janelas que possam ser abertas. Ao mesmo tempo, há coisas que não mudaram e vão continuar iguais.

Confira a entrevista completa na edição de agosto da Revista Proteção.


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