terça-feira, 24 de maio de 2022

Procedimentos: ter ou não ter?

Mais uma grande questão no campo da Segurança, associada ao tal do Trabalho Planejado versus a Realidade Real. O que pensar disso?

No último dia 4 de maio eu estava numa mesa de bar no meio de uma constelação – estava a Juliana (ela mesma, a Bley), o Paulo Gomes (das Novas Visões, morando na Austrália e fazendo mestrado na Lund), o Adilson, gerentão da Amazon, a Cândida, uma executiva de EHS com a letra “E” maiúscula hoje no setor de bens de consumo, o Victor (que trabalha com Fatores Humanos na Petrobrás), o Rafael (videoblogueiro das Novas Visões) e minha filha Mariana, estudante de jornalismo. E o papo, adivinhem só, era sobre desafios e ironias que a gente tem vivido no nosso dia-a-dia.

Muitas histórias, desde os descompassos entre o discurso e a prática que a Juliana observou no passado, as experiências do Paulo na Austrália, do Victor em Óleo e Gás (O&G), mas o que me provocou a escrever foi a discussão que a Cândida e o Rafael iniciaram sobre Integração, e o quanto são complicadas tanto a transmissão de informações como o “aculturamento” nestes dias e nestes processos. Insano mesmo – dificilmente alguém absorve mais do que 10% nestes dias de “integração”. Integrar mesmo, isso vai acontecer depois, cada empresa e cada processo do seu jeito, e foi aí que o papo virou candidato a post.  

A Amazon tem mais de 1,5 milhão de pessoas em seus ambientes de trabalho. Procedimentos muito simplificados nas suas operações mais volumosas, segundo o Adilson. Imagina só, uma empresa com mais de 1,5 milhão de funcionários, se tivesse procedimentos para todas as suas tarefas, quantos procedimentos seriam? 3 milhões? É gerenciável? Integração inteligente – as pessoas mais experientes introduzem as novatas nas tarefas, sob um nível de supervisão compatível com a complexidade das mesmas – mais complexo, mais supervisão; tudo muito básico e muito direto.

Por outro lado, a história que os caras de O&G contam é que desde o primeiro poço de petróleo perfurado pelo Drake em 1859 na Pensilvânia, cada perfuração tem a sua particularidade. E quando a gente vai para o off-shore, é mais individual ainda. Fiz uma provocação, soltando que uma plataforma é o lugar onde há um dos maiores hiatos entre o trabalho planejado e a realidade real, e o Victor deu até um exemplo em um momento em que ele projetou e foi, ele mesmo, coordenar a instalação de um equipamento em uma plataforma. O que ele havia desenhado simplesmente não cabia no espaço disponível. Simples assim. E houve retrabalho.

Nos dois exemplos acima, dá para pensar em “fazer benchmark” com procedimentos alheios, ou em outras palavras, “copiar e colar” procedimento do(a) coleguinha? Qual vai ser o resultado?? Se vai ser assim, qual vai ser a diferença entre o trabalho planejado e a realidade real? Faz sentido essa prática?

E também tem outra discussão interessante – soft skills e hard skills. Quando a gente fala no futuro da segurança, muita gente insiste que o caminho é capacitar os engenheiros e os técnicos nos tais dos soft skills. Sem dúvida nenhuma esse é um caminho, e os skills de escuta ativa, feedback claro, comunicação não violenta, cuidado e atenção com certeza fazem de uma pessoa um(a) líder em potencial. Mas, segundo um outro cara que fez uma apresentação neste dia em que estávamos presentes, o Gerardo Portela, onde ficam os hard skills? Será que no meio disso tudo a boa e velha engenharia (civil, mecânica, química, elétrica, de segurança do trabalho, entre outras) ainda tem espaço? É claro que sim, e eu concordo com o Gerardo de que dependendo do setor de atividade, uma boa liderança em Segurança também deverá estar fundamentada em um conjunto robusto dos hard skills – conhecimento do processo, dos equipamentos, das variáveis envolvidas e, em vários casos, de um procedimento bem elaborado, que conte com a participação de quem o executa de fato. E, também (há controvérsias…), do conhecimento e experiência na implementação de uma boa Norma Regulamentadora.

Enfim, o futuro não reserva espaço para uma Segurança no Trabalho feudalizada, aquele modelo que víamos nos anos 80 e 90, somente de indicadores passivos e de causas que identificavam pessoas ou “falta de percepção de risco”. Veja a mesa de boteco em que estávamos. Oito pessoas, oito experiências completamente diversas, com algumas coincidências aqui e ali. Idades desde 19 a 54, passando por todo o espectro. E pelo menos 3 formações diferentes – psicologia, engenharias e comunicação. É assim que tem que ser.

Para descontrair, um videozinho do BossTech, sobre projetos, que traz uma supersátira do que acontece em muitos lugares com o tal do “copiar e colar”, e sobre muitos dos PDCAs que eu já vi nessa mundão de meu Deus. Para reflexões. E obrigado à MSA por juntar essa turma toda em seu Summit!


Uma nova visão de segurança se propõe a discutir o futuro da segurança no trabalho, cada vez mais multidisciplinar e inclusivo. Ivan Rigoletto é engenheiro químico e de segurança do trabalho, mestre em Engenharia Civil, MBA em Gestão Empresarial e doutor em Engenharia Mecânica. Está na indústria há mais de 30 anos, a metade como executivo de Segurança e ESG. É professor universitário, autor e coautor de diversos livros e artigos. Foi condecorado pelo Corpo de Bombeiros de Campinas. Estreia como articulista regular no blog da Proteção.
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1 COMENTÁRIO

  1. Perfeito esse texto! Realmente, hoje a segurança no trabalho é muito mais percepção do ambiente, das pessoas e boa comunicação. Claro que isso vem devido a todo conhecimento técnico adquirido.
    Parabéns ,Ivan!

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