quinta-feira, 07 de julho de 2022

Exemplo prático de obtenção dos valores de vazão e volume em uma amostragem de vapores de acetona

Neste breve texto quero discorrer sobre uma estratégia de amostragem utilizada recentemente em um trabalho de campo desenvolvido em um laboratório de uma universidade atendida pela minha consultoria.

Durante o processo de reconhecimento de riscos químicos evidenciamos a exposição aos vapores de acetona (Chemical Abstracs Service – CAS: 67-64-1), originado durante os experimentos onde este produto químico é usado como solvente aprótico polar em diferentes tipos de reações orgânicas.

O limite de exposição ocupacional da Acetona no Anexo 11 da Norma Regulamentadora – NR 15 é de 780 ppm, enquanto que na ACGIH® o limite de exposição ocupacional é dado em termos do TLV-TWA de 250 ppm e do  TLV-STEL de 500 ppm (valores revisados em 2015).

Outros valores de limite de exposição ocupacional deste agente químico podem ser encontrados no site do IFA, com base no banco de dados do GESTIS, disponível em: https://limitvalue.ifa.dguv.de/WebForm_ueliste2.aspx

O método analítico para a realização da amostragem de vapores de acetona está previsto no NIOSH 1300 (disponível em: https://www.cdc.gov/niosh/docs/2003-154/pdfs/1300.pdf ).

Analisando o método analítico veremos que o valor de vazão recomendado é de 0,01 a 0,2 l/min, ou seja, iremos trabalhar com uma bomba de amostragem operando em baixa vazão (vazão < 0,5 l/min).

Além disso, o próprio método recomenda que para a acetona o volume de ar coletado esteja entre a faixa de 0,5 a 3 litros.

Buscando atender o método analítico e realizar a amostragem de vapores de acetona para atender os limites de exposição ocupacional, recordando: NR 15 – Anexo 11 (valores válidos para uma jornada de trabalho de até 48 horas por semana), TLV-TWA (média ponderada para oito horas de trabalho) e o TLV-STEL (limite de exposição ocupacional de curta duração, tal duração é de até 15 minutos, repetida 4 vezes ao dia, com intervalo de 60 minutos entre cada exposição) foi traçado os parâmetros de vazão e volume a serem aplicados na amostragem de campo.

A seguir irei demonstrar como as equações foram desenvolvidas, considerando os parâmetros do método analítico supracitado.

A vazão volumétrica é dada pela equação abaixo:

Como o volume de ar recomendado pelo método analítico é baixo, dificilmente teremos condições de realizar uma amostragem usando apenas um amostrador (amostrador usado em campo: tubo de carvão ativado, 6X70 mm, com duas seções de 50/100 mg de sorbente).

Como já está consagrado desde 1977 no livro “Exposição Profissional Manual de Estratégia de Amostragem” do NIOSH, é recomendado que o tempo de avaliação seja representativo da jornada laboral, considerando pelo menos 70% a 80% do período total de trabalho, por isso é muito comum dizermos que o recomendável é a amostragem de 75% da jornada de trabalho.

Para ter acesso ao manual de estratégia de amostragem traduzido para o português, acesse: https://www.abho.org.br/wpcontent/uploads/2015/02/Manual_NIOSH_Estrategia_Amostragem.pdf

Vamos agora entender como a equação da vazão volumétrica foi aplicada para traçarmos a estratégia de amostragem mais adequada.

Cabe ressaltar que primeiramente desenvolvemos uma avaliação qualitativa da exposição ocupacional neste laboratório, verificando o perfil de exposição ao longo de um dia típico de trabalho, neste caso havia uma distribuição de igual probabilidade de uso da acetona entre os períodos matutino e vespertino.

Logo, buscamos realizar amostras de período parcial que cobrissem cada uma um período de exposição diferente. Com a finalidade de obtermos o valor da vazão usamos os seguintes valores:

Vejam que usamos o maior de volume de ar previsto no método NIOSH 1300 e um tempo de coleta de 150 minutos (2h30min). O quociente obtido pela divisão do volume pelo tempo de amostragem foi de 0,02 l/min.

Contudo, a jornada de trabalho dos empregados do Grupo de Exposição Similar – GES avaliados é de exatamente 8h00min por dia (480 minutos), então um período de 150 minutos de quantificação é insuficiente para termos a representatividade necessária. Vale ressaltar que para uma jornada de trabalho de 480 minutos 70% dessa mesma jornada corresponde a 336 minutos (5h36min), enquanto 80% corresponde a 384 minutos (6h24min).

Tendo em vista todos estes aspectos, considerarmos ser adequado a realização de três amostragens, cada uma com duração de 150 minutos, totalizando 450 minutos, que em termos de porcentagem equivale a 93,75% da jornada de trabalho, um período satisfatório e representativo da exposição, verificando ainda que durante o breve período não amostrado (30 minutos da jornada de trabalho), não houve qualquer exposição aguda que pudesse tornar os nossos resultados subestimados.

Já para atendermos o TLV-STEL foram usados os seguintes parâmetros de volume e tempo:

Vemos então que a vazão obtida está dentro do parâmetro estabelecido pelo método analítico.

Portanto, o entendimento das equações a serem aplicadas, bem como dos critérios estabelecidos pelos métodos analíticos se mostram de grande importância para que o profissional higiene ocupacional possa estabelecer as estratégias mais apropriadas para um trabalho de campo.

Reflita sobre o tema e comente caso queira, ficarei grato em saber a sua opinião.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Excelente evolução da estratégia para avaliação do agente químico Acetona, assim como bem pontuado os parágrafos 8°, 12° e 18° da matéria.
    Para a estratégia apresentada e considerando 75% da jornada de trabalhos (360 min) então devemos utilizar na avaliação 03 unidades de tubos de carvão ativo (TCA 100/50 mg) para considerarmos a real exposição do GES, frente a saturação analítica que o dispositivo TCA apresenta em volume de passagem de ar para o agente químico em questão (NIOSH 1300), seria isto???

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