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Causos da Prevenção
Guto Velhada conta histórias divertidas vivenciadas por profissionais de SST

*A Coluna Causos da Prevenção publica alguns fatos reais vivenciados por profissionais de SST narrados por um contador de histórias, Seu Guto Velhada. Se você tiver alguma história interessante ou engraçada que quiser ver retratada na Revista Proteção, mande para redacao2@protecao.com.br, que o Seu Guto vai ter prazer em retransmitir o causo.


A derrota do `sabe-tudo`

- Ilustração: Beto Soares/Estúdio Boom
- Guto Velhada


Um dos programas de prevenção mais importantes da Gestão de Saúde e Segurança no Trabalho é o de Proteção Respiratória. No entanto, cabe ao SESMT de cada empresa definir a necessidade do uso de respiradores num determinado ambiente de trabalho. Caso seja recomendado o uso de respiradores, entra em cena o Médico do Trabalho que, de acordo com o anexo 6 do PPR, que trata da Avaliação Médica dos trabalhadores candidatos à utilização de respiradores, fará a avaliação do trabalhador.

Uma vez que o médico conclua que o trabalhador pode fazer uso do EPI, ele o encaminhará para a realização do Ensaio de Vedação (Qualitativo ou Quantitativo). Após isso, o trabalhador deve passar por um treinamento (item 6 do PPR) para, então, ser liberado o uso do equipamento no seu local de trabalho. Por se tratar de um processo de implantação detalhado, sendo que nenhum desses passos pode deixar de ser realizado e nem ter sua sequência alterada, exige-se do profissionais de SST um acompanhamento sistemático.

Em um curso de Proteção Respiratória ministrado por um renomado professor da área, havia um aluno que queria, desde o início, externar seus conhecimentos, suas escolhas, suas aplicações. Só que ele utilizava-se de gracinhas para fazer isso. Ficava cutucando o professor sempre que tinha oportunidade, o que deixava os demias alunos incomodados, pois tentava testar o conhecimento do professor o tempo todo.

Além do mal-estar causado por essa situação, o aluno questionador, que trabalhava numa Companhia de Saneamento, começou a enaltecer o que se chama de Conjunto de Ar Natural para trabalhos em galerias, iniciando, assim, um momento de grande constrangimento para si próprio. Para quem não sabe, esse conjunto de ar natural consiste de uma peça facial inteira que conta com uma mangueira sanfonada de dez metros e com um filtro na ponta.

Após a declaração do aluno engraçadinho, o professor retrucou dizendo:
- Esta não é a melhor opção. Há, no mercado, opções muito melhores do que essa.

Essa declaração foi o estopim para um bate-boca entre os dois, com cada um defendendo sua ideia. Isso acabou causando um desconforto, principalmente entre os demais alunos. Foi então que o professor, no alto de seu conhecimento profissional e precisando dar um basta na situação, concluiu a discussão com a seguinte resposta:
- Para todo comprador burro, tem um vendedor esperto.


Prova com consulta

- Ilustração: Beto Soares/Estúdio Boom
- Guto Velhada

Quem está estudando, ou que já passou por uma sala de aula, sabe que vai se deparar a qualquer momento com o incômodo chamado "prova". Em alguns casos, ela é uma autêntica vilã. Em outros, é tirada de letra. O fato é que ela precisa ser vencida para que se possa passar de ano.

A grande maioria dos alunos tem um verdadeiro pavor quando se aproxima a época de provas. Pedem, imploram para que o professor passe trabalho. Para isso, usam o argumento de que a prova não mede conhecimento, mas nem sempre são bem sucedidos, pois existem aqueles docentes carrascos, que têm prazer em dar nota baixa. Por outro lado, há os alunos que não querem nada com nada. Não entendem a transformação que a educação propicia.

Em um curso de Técnico em Segurança do Trabalho em São Paulo, considerado um dos melhores do Brasil, havia uma equipe de professores fantástica. Entre eles, havia um que era emocionalmente diferente. Ele colocava equipamentos de medição na mão dos alunos, dividia a turma em equipes e os mandava `invadir` os laboratórios de Ótica e Farmácia. Nem a lanchonete escapava quando ele pedia aos alunos que fizessem medições e produzissem relatórios sobre Higiene.

Certo dia, este professor, que era muito amigo e querido pelos alunos, recebeu um telefonema de um deles pedindo para que fosse à Instituição no dia seguinte, às 19h. Ele retrucou dizendo que este era o horário de sua aula, mas lhe foi dito que havia dúvidas e que o aluno precisava tirá-las.

No dia seguinte, pontualmente estava lá. O aluno, então, o conduziu para a sala de aula. Chegando lá, se deparou com um de seus colegas professores prestes a passar uma prova. Esse, não entendendo o que estava acontecendo, perguntou ao `convidado` o que ele estava fazendo ali naquela hora. O professor convidado então disse:
- Não sei. Foram os alunos que me pediram para vir aqui. Eles é que precisam se explicar.
Essa foi a deixa esperada por um dos alunos:
 - Professor, o senhor nos disse que a prova seria com consulta. Então nós trouxemos o professor aqui para consultar.
Todos gargalharam e se divertiram com a situação. No entanto, o professor responsável pela disciplina foi enfático:
- Não, mas isso não pode e eu não vou permitir.
Após esse episódio, ele ficou conhecido entre os alunos como aquele que não mantém a palavra.



Misericórdia!

- Ilustração: Beto Soares/Estúdio Boom
- Guto Velhada, com a colaboração do leitor Akaito José

Uma das maiores buscas do ser humano é por aquilo que chamamos de sentido da vida. Para se chegar a isso, existem muitos caminhos, entre eles, a religião, a fé e a crença em um Deus.

A qualquer hora do dia é possível encontrar alguém orando. Em geral, as preces são acompanhadas de um texto conhecido por todos, utilizado em missas e encontros religiosos.

Em uma empresa de Recife/PE, havia um estagiário de técnico em Segurança do Trabalho que tirou sorte grande. O sortudo da empresa estava no final de seu estágio quando abriu uma vaga no Sesmt. Com isso, eles resolveram prolongar seu estágio. Um ano depois, já familiarizado à rotina do trabalho e almejando a vaga, ele queria mostrar serviço. Foi bem nessa época que seria realizada a SIPAT da empresa.

Ele sabia que essa era a grande oportunidade de mostrar serviço e de ficar com a vaga de uma vez por todas. Então, fez um planejamento, dividiu tarefas com a CIPA, contatou palestrantes e deixou tudo pronto para o grande evento. Um detalhe, porém, saiu de seu controle. Sua coordenadora o chamou num canto e falou em um cochicho:
- Hoje é o dia de Ação de Graças. Ficarás responsável por "puxar" o Pai Nosso.
Dito e feito. Findada as palestras, o estagiário estufa o peito, cria coragem e diz:
- Bem gente, fui informado de que hoje é dia de Ação de Graças. Vamos ficar de pé e orar o Pai Nosso.
Todos obedeceram e ele puxou a reza:
- Pai nosso que estais no céu, santificado seja o Vosso Nome...
As palavras saíam, mas havia algo errado. Preocupado com o coffe break, que seria servido na sequência, ele, em sua oração, passou pelo vinho, café e pão com presunto. A dica de que estava rezando de uma forma singular, por assim dizer, só veio quando ouviu uma jovem exclamar:
- Misericórdia!
Ao se dar conta de seu erro, ele acelerou a reza e disse Amém. Muita gente nem percebeu o fato e o acompanhou rezando o Pai Nosso errado. Após o aperto, ele tratou de apressar sua fala e encerrar o evento agradecendo a participação de todos. Hoje a empresa cresceu e possui, em seu quadro de funcionários, o jovem que ficou conhecido como aquele que não sabe rezar o Pai Nosso, sendo que todo ano durante a SIPAT alguém se lembra do episódio.




"Soltando" o eletricista

- Ilustração: Beto Soares/Estúdio Boom
- Guto Velhada

N
o mundo moderno, é quase impossível imaginar como viveríamos sem eletricidade. Como faríamos para acompanhar a novela das oito? Como produziríamos os bens de consumo que utilizamos? Como ficaria o trânsito nas ruas e avenidas das cidades sem os semáforos? Como realizaríamos as cirurgias de emergência?

Hoje, a eletricidade faz parte do nosso cotidiano. Ela é importantíssima para que o País cresça, evolua e continue gerando cada vez mais empregos. Só assim conseguiremos atender uma população que aumenta cada dia mais. No entanto, essa energia, que gera desenvolvimento e empregos, tem ceifado a vida de muitos trabalhadores brasileiros. Isso motivou o Ministério do Trabalho e Emprego a reeditar a NR 10 (Segurança em Instalações e Serviços em Eletricidade), por meio da Portaria nº 598, de 7 de dezembro de 2004.

Assim que ela foi publicada, os cursos básicos de 40 horas para os trabalhadores autorizados se proliferaram. Um destes cursos acabou sendo ministrado por um engenheiro Eletrotécnico e de Segurança do Trabalho. Favorecida pela performance descontraída e cômica do palestrante e pelo entusiasmo dos participantes, a aula era muito dinâmica.

Um desses alunos estava incontrolável em seu canto, ávido por conhecimento. Ele fazia muitas perguntas e as respostas dadas pelo facilitador sempre começavam com a sentença "Depende...".

A cada nova pergunta lá vinha o famoso "Depende...". Só que as explicações posteriores dirimiam qualquer dúvida. Além disso, o facilitador estava correto, pois, em virtude das influências externas existentes nos processos com eletricidade, algumas respostas não permitem o "sim e/ou não".

No entanto, este modelo de construção do conhecimento começou a incomodar o ministrante do curso, que resolveu aguardar o momento certo para retrucar o participante. O momento chegou quando o aluno fez a pergunta derradeira:
- Gostaria de saber como eu faço para soltar o meu eletricista em caso de um acidente.
Sem deixar a peteca cair, o facilitador logo emendou brincando:
- Troque a placa que diz "Subestação" e coloque outra com o termo "Zoológico", porque o que a gente solta é bicho, e não gente.



Confusão Internacional

- Ilustração: Beto Soares/Estúdio Boom
- Guto Velhada


Trocar nomes, em geral, é uma situação constrangedora. Conheço uma senhora, do alto dos seus 74 anos, que está sempre trocando o nome das pessoas. Chama Daniel de Jorginho, Socorro de Célio, Abílio de Berto. Mas, apesar disso, continua firme e forte, tendo todos ao seu redor lhe entendendo e contentes com seu convívio.

Ninguém é perfeito, mas trocar nomes é sempre um problema. No exterior, a capital do Brasil já foi Buenos Aires. O Bush já deu 200 anos para a Rainha da Inglaterra. O Aécio já trocou a capital de Minas Gerais para Rio de Janeiro. A Dilma já foi José Dirceu.

Essa era uma das principais características de um conhecido médicod o Trabalho que constantemente era convidado a participar de palestras em eventos do setor prevencionista. Ele já tinha até fama de trocar o nome das pessoas. Conhecendo suas próprias dificuldades, tentava desenvolver formas para não cometer gafes, pois isso sempre pegava mal.

Certa vez foi convidado a participar de uma mesa redonda polêmica em que era preciso ter uma habilidade. Conhecia todos os presentes, mas não lembrava o nome de um dos participantes. Quando houve a apresentação por parte do moderador da mesa, lembrou do nome do conhecido: Aires. Para facilitar seu raciocínio, resolveu encontrar uma forma de lembrar o nome do colega de mesa e pensou:
- Aires. Claro, Buenos Aires. Basta me lembrar da capital da Argentina.

Ao estabelecer essa relação, ficou mais tranquilo. Resolvido esse impasse, tratou de se focar no debate. Como seria o último a falar, prestou atenção em todas as manifestações e procurou desenvolver mentalmente sua explanação para evitar repetir temas já tratados. O moderador, então, o anunciou e lhe passou a palavra. Ao saudar os demais membros da mesa, começou a nomear cada um de seus colegas. Só que na hora de cumprimentar o Aires, disse:
- Eu queria também saudar o meu amigo Iorque.
Ninguém entendeu nada, afinal só ele tinha como ligar o nome à capital norte-americana. Ele acabou fazendo uma confusão internacional, pois trocou Argentina por Estados Unidos, que tem como capital a cidade de Washington. O Aires virou Iorque para o riso dos que o conheciam. Só alguns minutos depois é que o médico se deu conta da confusão internacional que acabara cometendo.


O irmão da vítima

- Ilustração: Beto Soares/Estúdio Boom
- Guto Velhada, com a colaboração do leitor Wanderson Leão

A construção do conhecimento é um processo rico, principalmente quando se gosta do que se faz. O problema é quando não praticamos o que aprendemos. Somos tomados por uma sensação de vazio, gerando uma grande ansiedade. Sem percebermos, esse sentimento nos acompanha até conseguirmos colocar em prática o nosso aprendizado. Depois disso, tudo volta ao seu lugar.

Essa experiência foi vivida por um aluno de um curso de Técnico em Enfermagem, na cidade de Guarapari/ES. Ele estava gostando do curso e ansioso para colocar em prática seu recente aprendizado. Só que não acontecia nada para que ele pudesse entrar em ação. Várias ideias passavam por sua cabeça. Uma delas, inclusive, quase matou a sua avó. Já na rua, ficava sempre alerta esperando o momento de entrar em ação.

O grande dia então chegou. Ele ia andando por uma rua quando, de repente, avistou uma "muvuca". Muita gente aglomerada e curiosos aos borbotões. Prontamente ele se dirigiu ao local da movimentação para descobrir o que estava acontecendo. No entanto, não conseguia ver nada, pois estava muito distante. Com isso, perguntou para as pessoas ao redor:
- O que houve?
- Foi um atropelamento.
Respondeu uma pessoa mais a frente.

Ao ouvir essas palavras, ele pensou: chegou a minha hora, tenho que fazer os primeiros socorros da vítima. Então questionou-se como faria para vencer o mais rápido possível a distância até o acidentado tendo aquele mundo de transeuntes em sua volta. Foi quando teve uma ideia genial. Começou a gritar aos quatro ventos tentando abrir caminho.
- Sai, sai, sai. Sou irmão da vítima! Sou irmão da vítima! Gritava.

As pessoas que estavam em volta do local do acidente, atônitas se afastavam, olhando uns para os outros sem entender aquela atitude. Até que o nosso amigo estudante dedicado se deparou com a vítima caída no chão agonizando. Só que o acidentado era um cavalo que ainda estava vivo, porém muito machucado. Apesar da triste cena, a multidão não perdoou e começou a gritar:
- Sai, sai, sai. A mula chegou.
O jovem estudante, triste pelo fato, baixou a cabeça e foi embora sem colocar em prática seus recém-adquiridos conhecimentos.



Galo Cego

- Ilustração: Beto Soares/Estúdio Boom
- Guto Velhada, com a colaboração de Gilson Alberto da Silva

No Brasil, quando se fala em apelido, logo pensamos que alguém está tirando onda com outra pessoa. Como a criatividade do brasileiro é fértil, apelidos surgem de todo lado e para todos os gostos. Tem "Beterraba", "Brizolinha", "Cabeção", "Careca", "Chapolin Colorado", "Chucruti", "Floquinho", "Geléia", "Pernoca", "Pinguço, "Último Romântico" (só namora mulher feia), entre outros.

Há também quem junte apelido com nome: "Agnes Rezadeira", "Bel Tesourinha", "Beto Fuscão", "Dudu Scorpion", "Júlia Motosserra", "Vera Motocão". O engraçado é que os apelidos vão surgindo sem percebermos. Se vão pegar ou não, só o tempo dirá.

Em uma indústria química localizada na cidade de São Bernardo do Campo/SP, havia um trabalhador da manutenção elétrica que tinha uma elevada miopia e usava um óculos `fundo de garrafaÂÂÂÂÂÂÂÂÂÂÂÂÂ’ (lentes bem grossas). Como era comum nessa empresa colocar apelido nos colegas de trabalho, ele logo ganhou um: "Galo Cego".

Muito falante e às vezes confuso, dizia que "adorava trabalhar à noite". Só que logo a seguir falava que "a noite havia sido feita para dormir". Isso gerava um consenso e a maioria pensava que ele dormia durante o trabalho.

Percebendo a necessidade do uso do óculos de segurança  no ambiente de trabalho, o departamento de Segurança do Trabalho instituiu o uso desse EPI para todos os funcionários da área de manutenção.

Como tinha deficiência visual, o "Galo Cego" precisou providenciar a receita para a confecção de seu óculos com lentes corretivas. Ao receber o EPI devidamente ajustado ao seu grau, ele ficou tão contente que começou a utilizar o novo modelo de óculos em seu cotidiano.

Durante uma visita informal do técnico de segurança ao setor de manutenção para mensurar o grau de aceitação do equipamento, se deparou com o "Galo Cego" em uma roda de trabalhadores comentando sua aventura do dia anterior.

- Não sei o que aconteceu ontem à noite. Quando saí daqui, parecia que ia chover. Por onde eu passava via aqueles relâmpagos. E quanto mais eu acelerava, mais aumentava. Só agora percebi que não eram trovões, mas sim os feixes dos radares.

O "Galo Cego" tomou várias multas de trânsito por excesso de velocidade. Para se eximir da culpa, disse:
- Só pode ser por causa desses óculos de segurança.




Areia no chinelo

- Ilustração: Beto Soares/Estúdio Boom
- Guto Velhada, com a colaboração do leitor Fábio Dário Anesi, Edição 218 - Fevereiro 2010

Criada em 1962, a sandália Havaianas é ainda hoje um acessório indispensável na vida do brasileiro, sendo usada em qualquer lugar a qualquer hora. Pode parecer absurdo, mas podemos encontrá-la, por exemplo, nos pés de um trabalhador da construção civil.

Há dez anos, o proprietário de uma empresa de mão-de-obra na cidade de Timbó/SC resolveu contratar um profissional de segurança para ministrar um treinamento sobre os riscos da atividade e as medidas de prevenção a serem adotadas no canteiro de obras. No dia marcado, eles se reuniram para dar início ao treinamento. Ao todo, participaram 15 trabalhadores, sendo que, entre eles, rolava um clima de ansiedade e de descrença: a primeira por parte daqueles que estavam interessados em aprender mesmo; e a segunda por aqueles que achavam que treinamento era só para `encher linguiça` e atrapalhar o serviço deles.

Durante a apresentação foram abordados diversos temas da NR 18 como, por exemplo, movimentação e transporte de materiais e pessoas, armações de aço e instalações elétricas. Em seu discurso, o facilitador utilizou uma linguagem de fácil compreensão, o que deixou os participantes à vontade para tirar dúvidas e brincar entre si.
- Se você morrer, fica tudo para o próximo - disse um deles.
- Que próximo? - perguntou o outro.
- Aquele que vai ficar com sua mulher e a pensão. - respondeu o primeiro.

No dia seguinte, alguns estavam animados com a segurança e a prevenção de acidentes, mas outros, porém, como sempre, achavam uma bela `pedra no sapato`. Foi com esse último pensamento que um pedreiro foi trabalhar. Usando um par de "chinelos havaianas", ele se dirigiu à máquina betoneira para operá-la. Minutos depois entrou areia em seu chinelo. Ele então apoiou-se no volante da betoneira para alcançar o pé e tirar a areia que se encontrava presa no chinelo.

No entanto, esse movimento foi compreendido erroneamente pelo seu colega de trabalho. Vendo a cena, ele deduziu que seu companheiro estava levando um choque elétrico. Lembrando então do treinamento, pegou uma pá e acertou em cheio o peito de seu amigo, fazendo com que o impacto e a força da gravidade o levassem ao chão. As consequências disso foram três costelas quebradas, funcionários usando calçados de segurança e pessoal treinado em caso de acidentes elétricos.


 

Esperança até o fim

- Ilustração: Beto Soares - Estúdio Boom
- Guto Velhada*, Edição 217 - Janeiro 2010

A primeira edição do evento de Segurança e Saúde, PrevenRio, promovido pela Revista Proteção, foi realizado numa área próxima à praia de Botafogo.

Tudo transcorria normalmente, até que se espalhou a notícia de que aconteceria um jogo de futebol, no estádio Caio Martins de Niterói/RJ, entre o Internacional e o Botafogo. Devido à origem da Revista (Rio Grande do Sul) havia um número grande de gaúchos participando da feira, sendo que estes, em sua maioria, eram torcedores do Colorado. Como o Inter estava embalado e arrebentando no campeonato, os gaúchos ficaram afoitos para ver seu time vencer o Botafogo. Todos esperavam o final do evento para se dirigir ao estádio. Entre esses gaúchos havia dois jornalistas, desses bem fanáticos. A dupla combinou de ir ao jogo, mas esqueceu de consultar os anfitriões (cariocas) para saber qual o melhor meio de chegar ao estádio.

Terminada a feira, começou a odisséia. Eles saíram do centro de eventos às 18 horas em ponto e pegaram um engarrafamento monstruoso na Ponte Rio-Niterói. Mas nada os desanimava. Todos os obstáculos teriam de ser superados, afinal estavam indo assistir à vitória do Internacional.

Quando chegaram ao estádio, às 20h45min, o jogo já havia começado e o Inter perdia por 1 a 0. "Vamos virar, vamos virar." Esse era o pensamento predominante entre os dois gaúchos. Logo os gols começaram a sair, mas não para quem eles queriam. Quando o Internacional marcou o primeiro, o Botafogo já somava três. Faltando apenas 10 minutos para o árbitro encerrar o jogo, o Botafogo conseguiu judiar um pouco mais dos gaúchos ao marcar o quarto gol. Os dois não acredtiram no que havia acontecido. Eles ouviram o grito e vibração da torcida e, ao mesmo tempo, viam bandeiras preto e branco dominando o estádio.

Com isso, decidiram ir embora. Foram caminhando até a saída com passos rápidos e certeiros. Estavam com aquela mistura de derrota humilhante e raiva por todo o esforço para chegar até ali.

Dentro do carro alugado, o instinto de torcedor da dupla voltava a se manifestar. Então, antes de partir, decidiram aguardar um último gol do inter. Isso iria reduzir o impacto da derrota. No entanto, a noite reservava mais uma surpresa. O Botafogo fez o quinto gol.




Incômodo misterioso

- Ilustração: Beto Soares/Estúdio Boom
- Guto Velhada, com a colaboração do leitor Alfeu Batista Grando / Edição 216-Dezembro 2009

Quando entramos numa loja de departamentos, diversos produtos chamam nossa atenção. Ao escolhermos uma calça jeans, geralmente precisamos fazer uma bainha para que se ajuste melhor ao corpo. Já com o sapato é diferente. Ou ele fica apertado ou fica faltando pé. Nos tempos atuais, não é difícil encontrarmos três referências diferentes para o mesmo tamanho de calçado.

Em Pinalzinho, no oeste de Santa Catarina, dois trabalhadores de uma empresa do setor madeireiro foram contratados para atuar na linha de produção. Ao se dirigirem ao almoxarifado para as últimas instruções antes do início do trabalho, receberam os EPIs que deveriam usar no dia-a-dia da empresa. Esse kit contava com um capacete de segurança sem jugular, calçados de segurança hidrofugados nº 38, protetores auriculares de inserção e óculos de segurança.

Após participarem do processo de integração, os dois se encaminharam aos seus respectivos postos de trabalho. Foi quando surgiram os primeiros problemas. Ambos não conseguiam usar o calçado de segurança fornecido pela empresa, pois sentiam dores ao calçá-los. A equipe de SST trocava o modelo, a marca e os dois seguiam sem conseguir calçar os sapatos. Eles não conseguiam andar direito e os outros dois trabalhadores riam das trapalhadas dos dois.

Então a direção decidiu enviá-los a um médico para investigar a origem do problema. O primeiro médico ortopedista visitado disse que eles não tinham nenhum problema nos pés e que podiam usar o calçado de segurança. Eles voltaram, tentaram, tentaram e nada. Era impossível utilizá-lo. Foram indicados para uma segunda opinião.

- Vocês não tem nada nos pés, nem frieira e nem chulé. Possuem pés normais e podem usar o calçado de segurança - disse o outro ortopedista.

O resultado foi o mesmo. Foram indicados, então, para um terceiro profissional que emitiu a mesma opinião. Novas tentativas foram feitas, mas a dor e o incômodo persistiam. Ao todo, ocorreram 12 tentativas de trocas de sapatos. O drama persistia sem solução, até que a intuição feminina falou mais alto. Uma funcionária do setor do Almoxarifado, ao analisar o tamanho dos pés dos dois foi direta:

- Vocês dois tragam o calçado de segurança que vocês receberam e calcem um de nº 39.

Feito isso, aleluia! Os três riam muito, pois os calçados couberam direitinho. Uns dizem que foi mal entendido, outros que foi "leseira" ou falta de percepção, mas independente da verdade, o caso está resolvido.




Almoço inesquecível

- Ilustração: Beto Soares/Estúdio Boom
- Guto Velhada / Edição 215-Novembro 2009

Tem um profissional da área de Segurança e Saúde no Trabalho lá do Norte que veio para São Paulo na expectativa de conquistar um espaço no mercado. Ele gosta muito de ler. Dentre seus preferidos estão Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Hesse, Kafka, Virgínia Wolf. Esse hábito foi estendido à imprensa. Ele não comprava jornal pelo jornal. Tinha preferência por alguns articulistas e gostava muito do Paulo Francis. Passou anos comprando o Estadão e quando este se mudou para a Folha de São Paulo, ele também o fez.

Ele costumava ir a uma empresa do setor de equipamentos de segurança, para trocar ideias e conhecer novos produtos. Em uma dessas visitas, a conversa ia animada. Já passava do meio dia, quando o diretor da empresa fez o convite para almoçarem juntos. Isso acontecia com frequência, pois era uma oportunidade para continuarem conversando sobre o trabalho.

No meio da conversa surgiu o nome do Paulo Francis, que já havia morrido há alguns anos. O anfitrião lembrou-se que ali perto havia um restaurante onde o Paulo comia. Era um lugar simples, mas servia uma comida gostosa. O engenheiro ficou empolgado e disse que queria conhecer o restaurante que agradava o paladar do articulista.

Chegando lá, o engenheiro percebeu que o local realmente era simples, limpo e com uma aparência boa. Eles foram logo pegando uma mesa num local estratégico e aguardaram o garçom, que não demorou a chegar. O diretor da empresa escolheu logo uma picanha que vinha bem servida, pois sabia que o engenheiro comia bem. O impasse ocorreu com a bebida. O empresário quis escolher, mas o engenheiro foi depressa:

- Vamos tomar uma garrafa de vinho.

Ouviu argumentações de que o local não tinha estrutura para isso, mas o engenheiro disse que era isso que iam beber e pediu a carta de vinho. No local não havia carta, mas o garçom muito ágil e prestativo sacou de não sei onde uma garrafa de "Periquita", no que os dois concordaram.

A garrafa foi aberta e o vinho servido para degustação, os dois aprovaram e o garçom deixou sob a mesa. Ele tinha que arrumar um balde com gelo. Mesmo espantado, o garçom consertou tudo. Foi à cozinha e voltou com uma terrina de sopa com gelo e tascou a garrafa de vinho nela. Naquele dia alguém ficou sem sopa. Espero que o Paulo Francis não tenha visto.




Uma "nova" proteção auricular

- Ilustração: Beto Soares/Estúdio Boom
- Guto Velhada, com a colaboração do leitor Christian Camilo Andreuccetti / Edição 214-Outubro 2009

Um dos agentes ambientais mais presentes no ambiente de trabalho é o ruído. Ele pode produzir desde uma perda auditiva, até efeitos somáticos (contração de vasos sanguíneos), químicos (surgimento de gastrite) e psicológicos (insônia, irritação) nos trabalhadores. Para sanar esse problema, a medida de controle ideal é a coletiva, como, por exemplo, o enclausuramento de máquinas com absorvetes sonoros. No entanto, o mais comum é o uso de Proteção Auditiva, que exige do usuário um treinamento específico sobre sua utilização.

Há dez anos na cidade de Jundiaí/SP, mais especificamente em uma fábrica de rolhas e revestimento de cortiça, hoube um fato ligado à proteção auditiva. A empresa estava contratando novos funcionários e um deles era uma pessoa muito simples, humilde, natural do norte do Brasil, que só havia trabalhado na zona rural. Em virtude disso, o rapaz não fazia ideia do quer era uma empresa, linha de produção, normas de Segurança do Trabalho. Mesmo passando pela integração, não estava claro para ele o contexto em que estava inserido.

Paralelo a isso, surgia um novo profissional do SESMT dentro da empresa. Era um estagiário de Segurança do Trabalho, alocado do Setor de Pessoal, que estava vivamente interessado pela prevenção. Os dois personagens se encontraram na integração. O estagiário repassou todas as informações de riscos nos locais de trabalho, as medidas de proteção e, por fim, entregou aos funcionários dois uniformes e os EPIs, que incluíam um protetor auricular tipo inserção.

Passadas duas semanas, o gerente de produção caminhava pela fábrica para verificar o andamento da produção quando um funcionário (o ex-trabalhador rural) lhe chamou a atenção. Ele então o conduziu ao RH.

Chegando lá, o gerente falou para o estagiário de SST:
- Olhe para esse cidadão. O que ele tem de diferente?

Nesse momento o estagiário segurou-se para não rir da situação, pois o trabalhador estava usando rolhas de cortiça nas orelhas, o que lhe deu uma certa semelhança com o Frankenstein. Não se contendo, perguntou?

- O que é isso? O que aconteceu para você usar essa rolha na orelha? Cadê o protetor que você recebeu?

Envergonhado, o trabalhador disse que tinha perdido o protetor auricular e que ficou com medo de ser mandado embora por pedir outro equipamento. Foi então que pensou rápido e resolveu usar as rolhas.

A história ficou tão marcada na vida profissional do estagiários que, às vezes, ele utiliza o fato nas palestras que coordena.

 
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